Querido diário,
Este é o meu último dia aqui. Amanhã vou voltar, marcada mas, pelo menos, viva.
Hoje um menino deu o seu suspiro final nos meus braços e, apesar de tal acontecer quase todos os dias, ainda choro. Estive ali, abraçada a ele, a verter as lágrimas desesperadas por sair.
Muitos dos médicos que se voluntariam pensam que são heróis, são Deuses por se meterem no meio de um conflito armado para ajudar quem precisa. Vivem em ilusões. Aprendi muito neste último ano, o suficiente para poder afirmar que os verdadeiros heróis foram os inocentes que morreram, os inocentes que perderam toda a sua família, os inocentes que nunca mais terão uma vida normal devido às suas lesões, os inocentes que foram parar a uma guerra que não era deles.
O menino continuava nos meus braços, a sua cara de anjo não demonstrava a forma atroz como morreu, sozinho, aos quatro anos, sem ninguém. Deveria ter ainda muito tempo para viver, partiu cedo demais. Ao olhar para ele lembrei-me do erro mais comum do ser humano. O facto de nos afundarmos na rotina e, apesar de temermos a morte, não viver realmente o tempo que nos é oferecido. É disso que eu tenho medo: de um dia, quando for velha, acordar, olhar para trás e ver que não aproveitei as horas que me deram, olhar para a frente e ver que as que restam já são escassas, tão escassas que já me deparo com a cara sombria da morte. É disso que eu tenho medo, ver que perdi tanto e nem sequer me apercebi.
Tens agora um grande risco na página, meu amigo, é incrível como ao mínimo barulho que se pareça com um avião ou uma explosão, toda a gente no hospital atira-se para o chão tentando achar um refúgio seguro. Nestes momentos, o meu coração acelera e o meu corpo torna-se uma pedra ante ao medo sentido. Já não seria a primeira vez que atacariam a espelunca, no meio do deserto, à qual chamamos hospital.
Será que esta sensação alguma vez se desvanecerá? Será que o medo e a dor um dia não serão mais que memórias? Ou será que estes momentos farão parte do meu novo ser?...
Antes de aceitar o seu destino, o menino disse-me algo que os seus pais lhe haviam dito antes: Jamais volverá atrás a pedra atirada, e jamais a palavra dita e a pessoa esquecida. Terá sido um aviso? Não sei… Só sei que esta é a última página que te escrevo. Irei cavar um buraco e enterrar-te lá. Pode ser que um dia alguém te encontre e te estime. Até lá ficarás seguro, aqui, no Iraque.
Este é o meu adeus,
Catt Bap
Este é o meu último dia aqui. Amanhã vou voltar, marcada mas, pelo menos, viva.
Hoje um menino deu o seu suspiro final nos meus braços e, apesar de tal acontecer quase todos os dias, ainda choro. Estive ali, abraçada a ele, a verter as lágrimas desesperadas por sair.
Muitos dos médicos que se voluntariam pensam que são heróis, são Deuses por se meterem no meio de um conflito armado para ajudar quem precisa. Vivem em ilusões. Aprendi muito neste último ano, o suficiente para poder afirmar que os verdadeiros heróis foram os inocentes que morreram, os inocentes que perderam toda a sua família, os inocentes que nunca mais terão uma vida normal devido às suas lesões, os inocentes que foram parar a uma guerra que não era deles.
O menino continuava nos meus braços, a sua cara de anjo não demonstrava a forma atroz como morreu, sozinho, aos quatro anos, sem ninguém. Deveria ter ainda muito tempo para viver, partiu cedo demais. Ao olhar para ele lembrei-me do erro mais comum do ser humano. O facto de nos afundarmos na rotina e, apesar de temermos a morte, não viver realmente o tempo que nos é oferecido. É disso que eu tenho medo: de um dia, quando for velha, acordar, olhar para trás e ver que não aproveitei as horas que me deram, olhar para a frente e ver que as que restam já são escassas, tão escassas que já me deparo com a cara sombria da morte. É disso que eu tenho medo, ver que perdi tanto e nem sequer me apercebi.
Tens agora um grande risco na página, meu amigo, é incrível como ao mínimo barulho que se pareça com um avião ou uma explosão, toda a gente no hospital atira-se para o chão tentando achar um refúgio seguro. Nestes momentos, o meu coração acelera e o meu corpo torna-se uma pedra ante ao medo sentido. Já não seria a primeira vez que atacariam a espelunca, no meio do deserto, à qual chamamos hospital.
Será que esta sensação alguma vez se desvanecerá? Será que o medo e a dor um dia não serão mais que memórias? Ou será que estes momentos farão parte do meu novo ser?...
Antes de aceitar o seu destino, o menino disse-me algo que os seus pais lhe haviam dito antes: Jamais volverá atrás a pedra atirada, e jamais a palavra dita e a pessoa esquecida. Terá sido um aviso? Não sei… Só sei que esta é a última página que te escrevo. Irei cavar um buraco e enterrar-te lá. Pode ser que um dia alguém te encontre e te estime. Até lá ficarás seguro, aqui, no Iraque.
Este é o meu adeus,
Catt Bap